9ºC
Capítulo 5
No dia seguinte, Frederico vestiu-se rapidamente, impelido pela vontade de falar com a sua vizinha. Sentia que havia algo mais a descobrir sobre o seu nome, algo que iria mudar a sua vida para sempre. Ao subir as escadas pensava em formas de a abordar. Apesar de já ter estado com ela, achava que não a conhecia. Ao tocar na campainha, engoliu em seco. A porta abriu-se e este foi recebido por uma cara sorridente, dizendo-lhe:
- Meu querido Freddy! Como estás? Vieste fazer algum recado?
Frederico, incapaz de dizer alguma coisa, observou a sua vizinha. Era uma mulher já com uma certa idade, de cabelo esbranquiçado e cara enrugada. No entanto, possuía uns olhos azuis, joviais, próprios de uma rapariga de tenra idade. As mãos, lavradas por vários anos de trabalho árduo, estavam envoltas num xaile.
- Bem … senhora … – balbuciou, relembrando-se de que desconhecia o nome da sua vizinha. Devia ser a moradora mais antiga do prédio e, no entanto, não sabia o seu nome.
- Joaquina – completou a mulher, apercebendo-se da atrapalhação do rapaz – o meu nome é Joaquina.
- Senhora Joaquina, gostava de saber se me poderia ajudar a saber mais sobre a origem do meu nome.
- Claro, Freddy! Mas para isso acho melhor entrarmos.
Capítulo 6
Frederico, tal como muitas pessoas, acreditava que a casa de alguém refletia a forma de ser desta. Mas ao ver a casa de Joaquina, quase que apagou esta ideia da sua mente. Frederico, que comparava a senhora Joaquina às amigas da sua avó (que sempre que o viam lhe beliscavam as bochechas e o enchiam de batom, quando se juntavam para partilhar as mais recentes novidades) sempre imaginara a casa da vizinha igual às casas que apareciam nos desenhos animados, que passavam na televisão todas as noites: uma casa de paredes cor-de-rosa, com os móveis cheios de porcelanas e outras bijuterias e repleta de fotos e quadros antigos. A casa de Joaquina fugia a tudo isto: uma casa de paredes brancas e soalho em tijoleira escura, repleta de armários onde estavam armazenados livros sobre os mais diversos assuntos e, ainda, com inúmeros quadros e esculturas espalhados por toda a casa. O mobiliário era já um pouco antigo, provavelmente herança de família, de tantas marcar que a madeira, já a estalar, possuía. Ao fundo da sala, Frederico podia avistar uma pequena secretária, já antiga, coberta por papéis e páginas de livros que haviam sido arrancadas. Para Frederico, aquela imagem fazia-lhe lembrar um museu ou uma grande biblioteca.
Joaquina retorna à sala, trazendo consigo duas chávenas de chá e um cesto repleto de biscoitos acabados de fazer, pedindo a Frederico que sente e que lhe coloque todas as suas dúvidas. Frederico, já com dois biscoitos na mão, avança rapidamente para o assunto que o trazia a casa da vizinha:
- Nos últimos dias tenho pensado muito na origem e na importância dos nomes, principalmente do meu e supus que a senhora me pudesse ajudar a descobrir mais sobre ele.
- Bem, Frederico. Supuseste e supuseste bem. De facto acho que te posso ajudar. Mas primeiro, devo achar que a tua mãe nunca te terá falado muito de mim, pois não?
- Não, minha senhora. Mas a minha também não é muito dada a esse tipo de conversas.
- Bem, a verdade é que desde pequena que sinto a mesma curiosidade pelos nomes que tu sentes pelo teu e foi isso que me levou, desde que terminei o meu curso, ao estudo da origem e o do significado dos nomes. Todos os livros que podes ver expostos nas estantes desta casa se referem a isso mesmo. Reformei-me há alguns anos, pois o trabalho era exaustivo e a minha idade já não me permitia esse tipo de esforços, e, desde então, que tenho vivido neste apartamento. Mas chega de falar sobre mim. Vamos então ao assunto que aqui te trouxe. Gostavas de saber mais sobre o teu nome, não é assim? Bem, desde já posso-te revelar que Frederico representa o “Dirigente da Paz”, alguém romântico, gentil e afetuoso. É um nome de reis, nobres, dirigentes, acima de tudo, de líderes. Mas imagino que sabias isso?
- Sim, é verdade – respondeu, apercebendo-se de que a sua cara o havia denunciado.
- Bem, em geral, são estas as origens do nome Frederico. Existe um outro mito que suporta outro tipo de origem, mas os pormenores deste não permitem concluir a sua veracidade.
- Mesmo assim Senhora Joaquina conte-me à mesma. Tudo o que me puder dizer ser-me-á útil.
- Muito bem, se o desejas. Há cerca de quinze, vinte anos foram encontrados alguns pergaminhos e escrituras na América do Sul, no sopé de uma das montanhas da cordilheira dos Andes. Estes registos referiam-se a um povo antigo, designado pelas escrituras de Alapses, que teriam habitado aquele mesmo local centenas de anos antes. Nestes registos eram também reveladas algumas das crenças deste povo. Os Alapses acreditavam que desde o momento em que uma criança nascesse o seu destino era traçado e nada o poderia mudar. Mas os Alapses acreditavam também que o nome de cada pessoa descrevia esse destino, pelo que nenhum pai podia escolher o nome do seu próprio filho. Estes eram obrigados a levar o seu filho a um sacerdote, que seria capaz de comunicar com o chamado Mundo dos Espíritos e de ler o destino da criança, e que, então iria decidir o seu nome, fechando o seu destino. Passados sete meses da descoberta destes registos, uma equipa de exploradores americanos encontrou o templo em que, supostamente, decorreriam estas cerimónias.
- O que aconteceu aos Alapses? – inquiriu-a Frederico, enquanto fechava boca que abrira de espanto por tamanha história que acabara de ouvir.
- Não se sabe ao certo, mas acredita-se que todo o povo terá sido exterminado durante a Expansão Espanhola na América do Sul.
- Verdadeiramente incrível. Senhora Joaquina, poder-me-ia dizer qual o significado do meu nome na civilização Alapse.
- Lamento meu querido Freddy, mas só hoje tive acesso a cópias desses mesmos documentos e ainda não consegui examiná-las com grande pormenor. No entanto, esta noite vou visitar a minha filha e precisava de alguém que olhasse pela minha casa enquanto eu não chegasse. Se estiveres disposto, sempre podes dar uma vista de olhos aos meus apontamentos e talvez descubras algo de interessante. O que achas?
- Claro que sim! – disparou Frederico, soltando, de imediato um enorme sorriso.
- Muito bem. Aparece cá em casa por volta das sete horas e então digo-te o que tens que fazer. Certifica-te que a tua mãe te deixa ficar até tarde.
E foi isso mesmo que Frederico fez. Foi preciso insistir um pouco com a sua mãe (e suborna-la com uma semana de pequeno-almoço na cama) mas esta acabou por aceder ao pedido. Às sete horas menos um quarto Frederico estava já à porta de casa de Joaquina. Esta convidou-o a entrar e forneceu-lhe as indicações necessárias para tomar conta da casa (que basicamente consistia em regar as suas plantas). Dirigiu-se, então, para a entrada do prédio, onde a sua filha a aguardava, e partiu.
Frederico apressou-se a fazer todas as tarefas que Joaquina lhe deixara e, imediatamente, debruçou-se sobre o amontoado de folhas que se encontravam na pequena secretária e começou a lê-las. Ao início, Frederico sentiu imensas dificuldades em compreender qualquer das cópias dos manuscritos, mas os apontamentos de Joaquina permitiram-lhe decifrar, lentamente, as mensagens que se encontravam nas cópias. Ao fim de algum tempo, Frederico estava já muito bem informado sobre a cultura, as atividades e toda a história da civilização Alapse. Foi então que alcançou a parte que tanto intrigava, a parte referente às crenças da civilização Alapse. Frederico folheou inúmeras vezes todas aquelas folhas, descobrindo novos pormenores cada vez que as relia. E assim o fez, até acabar por adormecer.
Capítulo 7
Frederico acordou na manhã seguinte, já um pouco tarde, numa cama que não era a sua, com o cheiro de bolachas acabadas de fazer. Levantou-se de um salto, reparando que havia dormido completamente vestido. Dirigiu-se para o sítio de onde vinha o cheiro e rapidamente percebeu que havia dormido em casa de Joaquina. Esta encontrava-se na cozinha, a preparar o pequeno-almoço. A pedido da vizinha, Frederico sentou-se à mesa, examinando o seu recheado conteúdo.
- Dormiste bem, Freddy? Quando cheguei a casa estavas já a dormir, sentado à secretária e com a cara coberta de papéis. Não tive coragem para te acordar e pedi à tua mãe que te deixasse cá ficar a dormir.
- Obrigado pela amabilidade mas acho melhor voltar a casa.
- Fica só para tomar o pequeno-almoço. Acabei de fazer umas bolachinhas de chocolate.
Frederico, aliciado pelas bolachas de Joaquina, acabou por aceitar. Enquanto saboreava as deliciosas bolachas de Joaquina, Frederico relatava-lhe as suas descobertas da noite anterior. Ao terminar, dirigiu-se para a porta, acabando por passar pela pequena secretária. Voltou a dar uma vista de olhos nos papéis que se encontravam em cima da mesa e reparou em algo estranho: uma nova folha, em que não reparara na noite anterior. Numa rápida vista de olhos, duas palavras chamaram a sua atenção: “Frederico” e “escolhido”. Mas o que significaria aquilo? Porque é que o seu nome estava referido naquele documento?